Lua Nova em Leão — O Que Sustentamos Quando Tudo Está em Disputa

Esta Lua Nova acontece quando votar deixa de poder ser imaginado simplesmente como escolher entre projetos de governo. No Brasil, a eleição de outubro acontece num campo em que estão novamente em disputa as próprias condições de existência de mulheres, pessoas negras, indígenas, trans e queer, trabalhadores, moradores das periferias e daqueles territórios nos quais a distinção entre Estado, mercado, legalidade e violência armada nunca correspondeu à experiência cotidiana. No Rio de Janeiro, essa disputa é material. Às vésperas da eleição, o TRE-RJ transferiu 66 locais de votação considerados vulneráveis à interferência do crime organizado e das milícias, afetando aproximadamente 188 mil eleitores.

É nesse contexto que Sol e Lua se encontram a 20° de Leão, na oitava casa, onde também estão Mercúrio e Júpiter.

Se Leão traz a imagem da afirmação, esta Lua Nova desloca imediatamente a pergunta: quem pode aparecer, falar, desejar e agir quando as condições materiais de existência estão distribuídas de maneira tão desigual?

A oitava casa não permite imaginar autonomia como independência. Ela coloca no centro aquilo que compartilhamos mesmo quando não escolhemos compartilhar: recursos, dívidas, riscos, perdas, infraestruturas, heranças e consequências. Para Luz Negra, a lunação parece pedir que a eleição seja lida a partir daí. Não apenas como disputa institucional, mas como momento em que se torna particularmente visível a infraestrutura que decide quem pode circular, falar, organizar-se, votar, sobreviver.

A Zona Oeste torna essa infraestrutura impossível de abstrair. Ela concentra quase metade da população da cidade e 65% de sua superfície urbanizada habitada. Segundo o levantamento mais recente do GENI/UFF e do Instituto Fogo Cruzado, quase 90% da área da Zona Oeste submetida a grupos armados e aproximadamente 80% da população nessas áreas estão sob controle ou influência de milícias, embora a configuração esteja mudando com o avanço de outras facções e novas disputas territoriais.

Aqui, “política”  atravessa transporte, habitação, água, gás, internet, circulação, comércio, religião, polícia, acesso à terra e capacidade de permanecer num território. A pergunta da oitava casa torna-se então brutalmente concreta: quem controla as condições das quais dependemos?

Plutão, retrógrado em Aquário, conduz o desenho do mapa. Não o leria como promessa de uma transformação coletiva abstrata. Plutão pergunta pelas formas através das quais poder e violência entram nas infraestruturas do comum. O que acontece quando aquilo de que precisamos para existir se torna precisamente aquilo através do qual somos governados?

Essa pergunta atravessa também o campo progressista.

Para movimentos antirracistas, feministas, anticoloniais e anticisheteropatriarcais, a eleição não apresenta uma escolha simétrica. A violência política racial e de gênero permanece uma condição concreta da participação. Mulheres negras candidatas continuam particularmente expostas a ataques, desinformação e ameaças, e a própria inteligência artificial amplia as possibilidades de fabricação e circulação dessas violências. No Rio, isso não é hipotético: em agosto, Talíria Petrone voltou a denunciar ameaças de morte de conteúdo racista e sexual dirigidas também a seus familiares, depois de sucessivos episódios anteriores.

Talvez por isso Mercúrio seja tão importante nesta Lua Nova.

Mercúrio em Leão estabelece aspectos muito próximos com Urano em Gêmeos, Netuno em Áries e Plutão em Aquário. A palavra entra diretamente no campo da disputa. Mas não apenas a palavra eleitoral: imagens, algoritmos, plataformas, rumores, vídeos sintéticos, mensagens de WhatsApp, discursos religiosos, jornalismo, pesquisa, pedagogia e conversas de vizinhança constituem a matéria política deste período.

Não basta, portanto, “ter a narrativa certa”. A questão é quais infraestruturas fazem uma narrativa circular e quais relações tornam algumas imagens capazes de organizar medo, ressentimento e violência.

Essa questão conecta diretamente Brasil e Estados Unidos.

As eleições legislativas norte-americanas de novembro acontecem sob uma administração Trump e num campo profundamente organizado por imigração, raça, gênero, direitos reprodutivos e direitos LGBTQ+. As primárias desta semana já mostram que imigração e resistência às políticas do ICE estão reorganizando disputas internas no Partido Democrata, inclusive com vitórias progressistas.

O que circula nos Estados Unidos não permanece lá. Tampouco aquilo que acontece no Brasil permanece aqui. A extrema direita aprendeu há muito tempo a operar transnacionalmente: signos, inimigos, técnicas de comunicação, teorias conspiratórias e guerras contra gênero atravessam fronteiras. No Brasil, a própria campanha presidencial já articula explicitamente a relação entre bolsonarismo, Trump e soberania nacional.

Mas esta Lua Nova talvez nos convide a não responder construindo simplesmente uma imagem progressista equivalente.

Vênus está em Libra, na décima casa e próxima ao Meio do Céu. Há aqui uma pergunta sobre como aparecer publicamente sem aceitar que aparecer seja o mesmo que disputar visibilidade nos termos oferecidos pelo adversário.

Este tema ressoa com leituras anteriores do mapa da lua nova. 

Porque talvez sua tarefa neste período não seja tornar-se uma máquina eleitoral, nem oferecer mais um discurso sobre democracia. Talvez seja sustentar as condições materiais, afetivas, pedagógicas e intelectuais através das quais pessoas possam continuar organizando-se independentemente do resultado eleitoral.

Saturno e Netuno estão ambos retrógrados em Áries, na quarta casa. A quarta casa devolve tudo à infraestrutura profunda: onde se mora, onde se come, onde crianças permanecem, onde alguém pode encontrar outras pessoas sem medo, onde se aprende, cultiva, descansa, conversa e organiza.

Para territórios como a Zona Oeste, talvez esta seja a imagem decisiva da lunação.

A defesa da existência não pode começar apenas quando a ameaça chega.

Horta, cozinha, formação política, cuidado, produção de conhecimento, acesso tecnológico, espaços para crianças, redes entre mulheres, produção cultural, defesa jurídica, circulação de informação e lugares onde pessoas possam simplesmente encontrar-se não são atividades periféricas à política. São infraestrutura política.

E aqui a Lua Nova retorna à oitava casa: o que podemos sustentar juntas que nenhuma de nós conseguiria sustentar sozinha?

Júpiter amplia a pergunta. O Nodo Norte em Aquário a leva para o coletivo. Plutão pergunta quem controla aquilo que construímos. Vênus pergunta que forma pública lhe damos. Saturno pergunta se poderá durar. Netuno impede que confundamos a estrutura com aquilo que desejamos sustentar.

As eleições de outubro no Brasil e de novembro nos Estados Unidos importam profundamente. Seus resultados produzirão consequências materiais muito diferentes. Esta Lua Nova não pede indiferença diante delas.

Ela pergunta algo mais difícil:

o que precisamos construir agora para que nossa capacidade de existir, imaginar, recusar, proteger umas às outras e produzir outros arranjos não dependa exclusivamente de quem vencer?

Talvez seja essa a tarefa que a Lua Nova em Leão coloca diante de nós: não escolher entre eleição e construção de autonomia coletiva, mas reconhecer que votar, organizar, cultivar, ensinar, proteger, imaginar e construir infraestrutura pertencem ao mesmo campo de disputa.

Porque há momentos em que resistir significa impedir uma vitória.

E há momentos em que é preciso, simultaneamente, construir aquilo que queremos que exista depois dela.

Violeta Rocha

12 de agosto de 2026